Só conseguimos saber se somos suficientemente fortes quando nos deparamos perante uma situação. Neste caso, durante dois meses e treze dias eu deparei-me com várias situações, para as quais, achava eu, não estava preparada. As aulas teóricas não nos ensinam como lidar com as situações mais dramáticas ou com casos demasiado concretos de crianças e jovens adolescentes, doentes ou que passam maior parte do seu tempo num hospital. Este tempo que passei em contacto direito com estes meus "queridos", que cada um irei guardar de uma forma especial no coração, fez com que eu percebesse a sorte que tenho e a ótima escolha que fiz, nem que seja só para ter esta experiência gravada no coração.
Deparei-me com casos de cortar a respiração a qualquer um. Em cada um deles via-me ou via um irmão meu. Este mundo, por muitos desconhecido e somente criticado, é um mundo de muita coragem e todos os profissionais que ali trabalham arduamente em prol do bem estar destes jovens deveriam ser reconhecidos.
Admito, muitas vezes não foi fácil lidar com as situações, sabem quando só queremos chorar e sabemos que não podemos porque não é o momento oportuno? Ou quando nos apegamos de tal modo aquelas pessoas que no momento da despedida nos custa o mundo?
Tudo isso me aconteceu. Aconteceu-me porque há pessoas que merecem viver livremente como eu ou até tu que estás a ler isto.
Aquele tempo ali vivido, no Hospital D. Estefânia, foi o melhor do mundo.
O Tomás - principalmente ele - será o jovem que mais me marcou. Desde o momento que conheci a história dele, encantou-me. Vi nele um irmão mais novo, uma pessoa que tinha tudo pela frente e que derivado à sua doença não consegue ter uma vida, dita "normal", como os outros adolescentes, está ali, preso àquele mundo hospitalar. Foi a pessoa que sempre me emocionou, desde o primeiro até ao último dia quando me disse "Inês, voltas cá a visitar-me?", obviamente que irei, como não poderia ir? Iria abandoná-lo? Não. Não o faria.
Ele, foi uma pessoa que me demonstrou que temos de acreditar, temos de lutar com todas as nossas forças mesmo nas alturas em que queremos desistir, que queremos virar as costas e ir pelo caminho mais fácil, ele ainda ali está a lutar com todas as suas forças, as poucas que lhe restam e cabe-me a mim proporcionar-lhe momentos de alegria com as minhas visitas.
Mas não foi só o Tomás que me encantou. Pela primeira vez lidei de perto com o trabalho realizado pelos "Doutores Palhaços", com isto refiro-me à Operação Nariz Vermelho. Não tinha a noção da dimensão do trabalho destas pessoas que, todas as terças-feiras, iam ao meu serviço de internamento para proporcionarem um dia diferente àquelas crianças hospitalizadas e até nós, funcionários, pois com a sua boa disposição e alegria contagiante nos faziam descomprimir do trabalho excessivo e nos faziam dar gargalhadas e pensar que no meio hospitalar também podemos sorrir, dar gargalhadas de contentamento e transmitir essa alegria a todas as crianças e adolescentes que ali estavam.
A "Música nos Hospitais" também era alegria garantida, as vozes daquelas duas Senhoras eram encantadoras. Estavam sempre dispostas a fazer-nos sentir bem, a nós, funcionários, e a todas as crianças. Emocionavam-nos só pelo seu sorriso, só pela simpatia. Grandes seres humanos.
Resumidamente, foi a melhor experiência da minha vida. Algo que me vai deixar imensas saudades, mas quando digo imensas é mesmo uma saudade incalculável.
Nisto ainda não referi a pessoa que mais paciência teve para lidar comigo, a Maria, a grande Maria! Foi uma Senhora, uma mãe, uma tia. Foi uma pessoa que esteve lá sempre, todos os dias a dar-me na cabeça mas também a valorizar o meu trabalho, a minha capacidade de aprender, a minha eficiência. Uma pessoa que vou guardar sempre, sempre no coração. Desejo-lhe o melhor na vida, a ela, aos seus filhos e à sua neta.
Foi o melhor que podia ter tido. Quero voltar, deixei-me voltar a sorrir mais um dia mesmo que tenha de acordar às 5h da manhã e só chegar a casa às 18h da tarde.
Emociono-me a falar sobre esta experiência porque há tantas recordações, tantos momentos bons e sem dúvida que eu quero ser voluntária num hospital e se ali fosse, eu ia adorar, na verdade, amar.
Obrigada a todos os profissionais com quem trabalhei, um beijinho enorme para todos eles.
Obrigada, obrigada, MUITO obrigada!

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